Análise aponta para aumentos de até 20% nos preços de computadores e componentes, com a inteligência artificial no centro da crise.
O início de 2026 trouxe uma notícia que nenhum gestor de TI gostaria de ouvir: os preços de componentes de computador dispararam de forma alarmante. Segundo a consultoria IDC, fabricantes como Lenovo, Dell, HP, Acer e ASUS implementaram aumentos entre 15% e 20% nos preços de seus equipamentos. Para empresas que dependem de tecnologia — como a nossa — entender os motivos por trás dessa escalada é fundamental para o planejamento estratégico.
O Vilão Improvável: A Inteligência Artificial
Paradoxalmente, a tecnologia que promete revolucionar o mundo dos negócios tornou-se a principal causadora desta crise. A procura voraz de Inteligência Artificial nos centros de dados está a drenar a capacidade de produção de memória RAM, segundo análise da IDC.
Os três gigantes que dominam 75% do mercado global de memórias — Samsung Electronics, SK Hynix e Micron Technology — redirecionaram suas linhas de produção. Estas empresas estão a desviar a produção das memórias convencionais para a Memória de Banda Larga Elevada (HBM), utilizada em aceleradores de IA da NVIDIA, onde as margens de lucro são entre duas a cinco vezes superiores.
A Escassez de RAM e Armazenamento
O resultado prático é devastador para o mercado corporativo. A memória RAM e os SSDs, componentes essenciais para qualquer operação de TI, tornaram-se artigos escassos. Algumas lojas vendem memória como se fosse um artigo de luxo, os custos dos computadores pré-montados aumentaram e alguns assembladores chegaram ao ponto de vender PCs sem qualquer memória RAM incluída.
Maria Santos, gerente de infraestrutura de uma empresa de software em São Paulo, relata sua experiência: “Tentamos comprar 50 notebooks para novos colaboradores em dezembro. O que custaria R$ 60 mil em setembro de 2025 agora sai por R$ 72 mil — quando conseguimos encontrar estoque.”
O Timing Não Poderia Ser Pior
A crise de componentes coincide com outros fatores que agravam a situação:
Fim do Windows 10: Com o término do suporte estendido ao Windows 10 em outubro de 2025, milhares de empresas precisam migrar para o Windows 11, forçando atualizações de hardware em um momento de preços elevados.
Surgimento dos AI PCs: Os novos computadores equipados com recursos de IA exigem configurações mais robustas, especialmente mais memória RAM. A IDC alerta que máquinas com mais de 16 GB de RAM enfrentarão sérias restrições de fornecimento.
Placas de Vídeo em Alta: AMD e NVIDIA já sinalizaram aumentos em suas GPUs para compensar os custos crescentes da memória. Entre as companhias que já antecipam um reajuste iminente está a AMD, que alertou seus parceiros sobre um aumento de 10% em suas GPUs.
Quanto Tempo Vai Durar?
As projeções são pouco animadoras. A IDC afirma também que a crise de RAM e armazenamento provavelmente chegará a 2027. A fabricante de memórias Micron considera que a indústria não está disposta a arriscar grandes investimentos em novas fábricas, temendo uma possível desaceleração no setor de IA.
A estratégia conservadora dos fabricantes tem lógica financeira: após os ciclos de excesso de estoque em 2018 e 2022, eles optaram por disciplina rigorosa na expansão da capacidade produtiva, priorizando rentabilidade sobre volume.
Projetos Gigantescos Competindo por Recursos
Para ilustrar a magnitude da demanda, o projeto “Stargate” da OpenAI assinou cartas de intenção com Samsung e SK Hynix que podem consumir até 900.000 wafers de silício de DRAM por mês — uma fatia gigantesca da capacidade global que deixa o mercado de consumo corporativo em segundo plano.
O Que Fazer?
Para empresas de TI, especialistas recomendam:
Antecipe compras essenciais: Se há necessidade clara de equipamentos nos próximos meses, adquira o quanto antes. Os preços tendem a continuar subindo ao longo de 2026.
Priorize upgrades estratégicos: Avalie cuidadosamente quais sistemas realmente precisam de atualização. Equipamentos que ainda atendem bem às demandas podem ser mantidos por mais tempo.
Considere PCs pré-montados: Grandes fabricantes têm maior poder de negociação com fornecedores e conseguem oferecer melhor custo-benefício do que montagens customizadas neste momento.
Revise contratos: Empresas que possuem contratos de fornecimento de equipamentos devem renegociar termos considerando os novos patamares de preços.
Explore alternativas: Cloud computing e virtualização podem reduzir a dependência de hardware local para algumas aplicações.
Perspectivas Futuras
A situação atual representa uma mudança estrutural no mercado de tecnologia. Durante décadas, a produção de memória para smartphones e PCs foi o motor principal da indústria. Essa dinâmica se inverteu completamente, com a IA ditando as prioridades de produção global.
Como disse um representante da IDC: “Para consumidores e empresas, isso sinaliza o fim de uma era de memória e armazenamento baratos e abundantes, ao menos a médio prazo.”
Para empresas de TI como a nossa, isso significa repensar estratégias de investimento, planejar com maior antecedência e, principalmente, adaptar-se a uma nova realidade de custos mais elevados e recursos mais escassos.
Esta reportagem foi elaborada com base em análises da IDC, informações de mercado e consultas com especialistas do setor de tecnologia.
